Texto, contexto e pretexto da Encíclica “Fratelli tutti”

"Com tais motivações em jogo, o Santo Padre passa a descrever o que ele chama de “desconstrucionismo", onde a crise parece derreter a consciência histórica e onde não se vê mais um projeto comum de sociedade. Daí à cultura do consumismo e do descarte, bom como à indiferença com os direitos humanos, a passagem é breve e perigosa. Comporta medos, conflitos e polarizações exacerbadas".

Todo texto pressupõe um contexto e um pré-texto. O contexto remete ao terreno temporal e espacial a partir do qual se produz um documento. Este tanto pode ser uma obra de ficção ou uma carta, quanto um relato histórico ou um estudo científico. Qual o panorama econômico, social, político e cultural que lhe está subjacente? Em que circunstâncias históricas ele veio à tona? Quais os motivos e condições que o provocaram? Em outras palavras, todo fragmento escrito tem raízes fincadas numa determinada localidade, sem deixar também de possuir asas que muitas vezes o tornam universal.

Já o que podemos chamar de pré-texto tem a ver com as inquietudes e interrogações que levam o autor a empreender uma pesquisa, um projeto de um livro ou uma carta. Procura responder às perguntas explícitas ou implícitas, ditas ou não ditas, que se respira no cotidiano. Fazendo parte deste cotidiano, o autor encontra-se imerso na realidade concreta. Dela extrai e digere questões nem sempre confessadas e confessáveis. Daí que o pré-texto, ao mesmo tempo que leva em consideração os interrogativos locais, tenta igualmente trazer alguma luz sobre a nebulosidade de um horizonte global que se faz obscuro e inseguro.

Dito isso, o texto da Carta Encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco, “sobre a fraternidade e a amizade social” comporta seu contexto e seu pré-texto. O contexto fica evidenciado logo início da encíclica em duas expressões que descrevem o mundo atual. Uma delas corresponde ao título do primeiro capítulo: “as sombras de um mundo fechado”, imediatamente seguida de outra que figura como subtítulo do mesmo: “sonhos em pedaços”. Com tais motivações em jogo, o Santo Padre passa a descrever o que ele chama de “desconstrucionismo”, onde a crise parece derreter a consciência histórica e onde não se vê mais um projeto comum de sociedade. Daí à cultura do consumismo e do descarte, bom como à indiferença com os direitos humanos, a passagem é breve e perigosa. Comporta medos, conflitos e polarizações exacerbadas.

O Pontífice retoma temas já refletidos em outros documentos da Doutrina Social da Igreja, tanto de seus antecessores quanto de sua autoria. Um deles é o descompasso entre o progresso técnico e a economia globalizada, de um lado e, de outro, o desenvolvimento integral que poderia levar a uma inserção mais justa e solidário no mundo do trabalho. Dois aspectos essenciais formam o pano de fundo desse aparente pessimismo. Um deles é a ruptura do “contrato social” que, de alguma forma, alicerçou o projeto dos tempos modernos. Rompem-se com extrema facilidade laços, relações, atitudes e comportamentos, o que leva a uma ausência generalizada de estrelas no céu, ou de referências básicas de orientação. O segundo aspecto decorre justamente dessa carência de pontos sólidos onde firmar os pés e avançar com certa segurança. Emerge o conceito célebre de “modernidade líquida”, cunhado por Zygmunt Bauman.

Em vista desse contexto incerto, conturbado e fragmentário, a Carta Encíclica procura responder às questões do pré-texto. Aqui, dois fatores ajudaram a turbinar uma série de medos e angústias relacionadas a um tecido social já fortemente esgarçado: o retorno da extrema direita ao poder, com um discurso marcado pelo populismo nacionalista e a pandemia do Covid-19. Um e outro mexeram negativamente com o mundo do trabalho e dos direitos trabalhistas, levando multidões ao desemprego, subemprego ou mercado informal. Mexeram igualmente com a perspectiva de defesa do meio ambiente, costurada por cientistas, ambientalistas e diversas nações de forma tão árdua e laboriosa ao longo das últimas décadas. Ambos os fatores criaram um imenso exército de migrantes e refugiados, errando atrás dos ventos e das migalhas do capital.

Do segundo capítulo em diante, o Papa Francisco toma como referência a parábola evangélica do Bom Samaritano para apontar algumas linhas de ação. Tem em vista o desafio de “pensar e gerar um mundo aberto”, mas também “um coração aberto ao mundo inteiro”, títulos do terceiro e quarto capítulos respectivamente. Utopia positiva de um mundo de irmãos e sem fronteiras!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 8 de outubro de 2020

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